Falsos profetas

Como disse um grande poeta
lá de Sobral, no Ceará,
cujas ideias realistas
é sempre bom relembrar:
“eu não estou interessado
em nenhuma teoria,
em nenhuma fantasia,
nem no algo mais”.

Eu não estou interessado
em discursos baratos,
sem nexo com os fatos,
que rimam qualquer coisa
com religião,
qualquer ideia doida
com sermão,
numa alucinação banal
no palanque da moral.

O pior dessa loucura
é que não se encontram nas farmácias
os remédios para as falácias
que surgem espontaneamente,
diariamente,
absurdamente,
inacreditavelmente,
dentro de suas mentes,
como abortos
saídos de seus dedos,
constatados,
registrados,
ignorados,
subnotificados,
infundados,
inexplicáveis,
insustentáveis,
enfim,
sem sentido.

Mas vendem esparadrapos
para tapar as bocas
dos fanáticos,
dos lunáticos,
que fazem das religiões
verdadeiras seitas,
proferindo ideias
sem prescrições
e sem receitas,
colocando palavras
na boca de Deus.

Com todo respeito
às suas crenças,
meu nobre leitor,
mas é que por aí
tem muito enganador
enganando a si mesmo
e julgando com chicotes.

No estalar de suas línguas,
ouço chicotadas
deturpadas
de quem ainda não entendeu
que o seu próprio Deus
já lhes havia dito,
e até deixado por escrito,
que atirasse a primeira pedra
aquele que não tivesse pecado.

Pelo contrário.
Fizeram foi como Davi,
que matou Golias a pedradas.
Compraram até estilingues
para treinar a pontaria
de sua infantaria
infantilizada
e totalmente atrasada
(diria até “hipócrita”),
de quem não tem nenhuma empatia
para amar e respeitar os outros
como a si mesmos.

Ricardo Starling

Brasília, 3 de fevereiro de 2021.

um murro no muro

Mercadorias, melancolias e melodias…
Produtos e subprodutos.
Posso me revoltar sem armas?
Talvez uma picaretada
Na cara do picareta.
Ou um murro no muro.

Os muros são duros,
São surdos,
São mudos,
São surdos-mudos.
Nem adianta explicar.

Perdemos o mundo
Pouco a pouco
Por entre os dedos dos pés,
Na lama da terra,
Nos crimes selvagens.

O que há de melhor em mim
É a revolta
No lamaçal de lodo
De onde me salvo.

Ricardo Starling

Brasília, 2 de fevereiro de 2021